quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Letramento - A Leitura e a Escrita

Flavio Aurélio da Silva Brim
Prof. Aírton Júlio Reiter
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Pedagogia (PED 6651) – Fundamentos da Lingüística
06/10/2008

RESUMO

Vivemos um tempo em que a globalização e o desenvolvimento tecnológico das nações está tão acentuado que se faz necessário um cuidado todo especial por parte dos países em elevar o grau de educação dos seus cidadãos. O Brasil já tem conquistado muitas vitórias nesse sentido mas ainda falta muita coisa a ser alcançado. Podemos dizer que nossos índices de alfabetização tem crescido mas não podemos dizer o mesmo quanto aos índices de letramento. Nesse documento você irá compreender esses desafios e o significado e importância de conceitos como: Alfabetização, Letramento, Leitura e Escrita para uma nação que pretende acompanhar o crescimento das demais nações globalizadas.

Palavras-chave: Letramento; Leitura; Escrita.


INTRODUÇÃO

Como alunos de pedagogia, devemos estar muito bem informados sobre como vai o ensino em todo o território nacional. Infelizmente as informações não são animadoras. Apesar de nos anos de 1996 à 2006 o Brasil ter tido uma queda de 29,1% na taxa de analfabetismo, ela não foi suficiente para nos tirar de penúltimo lugar no ranking de alfabetização na América do Sul. Segundo dados do IBGE o percentual de brasileiros que não sabem ler e escrever é inferior apenas ao da Bolívia, onde a taxa de analfabetismo foi de 11,7% em 2005.

Cyntia Santuchi Peixoto nos traz alguns dados estatísticos estarrecedores:

De acordo com informações (MEC/INEP, 2001) cerca de 980.000 crianças na 4ª série do ensino fundamental não sabem ler, e mais de 1.600 são capazes de ler apenas frases simples. Recentemente, a Rede Globo, através do Programa semanal “Fantástico”, fez uma pesquisa intitulada “Provão do Fantástico” aplicada em 27 capitais brasileiras (somente em escolas públicas), e avaliou que mais da metade dos alunos não é capaz de responder a questões que requerem raciocínio e 60% só conseguem identificar informações muito simples. Esses, seriam apenas mais alguns dados para pessoas comuns, mas é algo extremamente alarmante para o educador. É neste ponto que entra a grande questão da intervenção do educador e a inclusão da prática geradora do letramento.

É verdade que temos nos esforçado para resolver o problema do analfabetismo em toda nossa pátria. Mas a questão, como afirma Cyntia Santuchi Peixoto, não está no analfabetismo. Estamos avançando nesse sentido. Mas a questão é: Qual o nível de letramento que essas pessoas "alfabetizadas" possuem? Para Cyntia nossa dificuldade está com os níveis de letramento.

[...] a preocupação, pois, não é com os níveis de analfabetismo, mas com os níveis de letramento, com a dificuldade que adultos e jovens revelam para fazer uso adequado da leitura e da escrita: sabem ler e escrever, mas enfrentam dificuldades para escrever um ofício, preencher um formulário, registrar a candidatura a um emprego - os níveis de letramento é que são baixos.


LETRAMENTO - ORIGEM DO CONCEITO

De acordo com Antônio Paiva Rodrigues a palavra letramento é nova "parece que a palavra letramento apareceu pela primeira vez no livro de Mary Kato: No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, de 1986."

Embora os índices do analfabetismo ainda sejam grandes, muitos que aprenderam ler e escrever estão longe de enfrentarem a vida com todo os desafios da modernidade. Estão alfabetizados mas ainda cativos, presos, impedidos de fazerem diferença na sociedade. Conforme Magda Becker Soares as pessoas aprende a ler e a escrever, mas não conseguem incorporar a prática da leitura e da escrita.

As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática da leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais de escrita: não lêem livros, jornais, revistas, não sabem redigir um ofício, um requerimento, uma declaração, não sabem preencher um formulário, sentem dificuldade para escrever um simples telegrama, uma carta, não conseguem encontrar informações num catálogo telefônico, num contrato de trabalho, numa conta de luz, numa bula de remédio... Esse novo fenômeno só ganha visibilidade depois que é minimamente resolvido o problema do analfabetismo e que o desenvolvimento social, cultural, econômico e político traz novas, intensas e variadas práticas de leitura e e de escrita, fazendo emergirem novas necessidades, além de novas alternativas de lazer.

Esse processo acima mencionado por Magda Becker Soares é chamado de Letramento. Quando uma pessoa alfabetizada passa fazer uso da leitura e da escrita para envolver-se nas práticas sociais da leitura e da escrita, ela está experimentando um processo de Letramento.

Foi com o surgimento da palavra LETRAMENTO que também surgiu a discussão sobre: O que era alfabetização e o que era Letramento? Madga Becker Soares (2003, p.15)

Em nossa sociedade pode haver pessoas alfabetizadas mas não necessariamente letradas. A questão é: Como saber qual é o índice do letramento dessa sociedade? Se estamos de fato preocupados em aumentar os níveis de letramento da nossa sociedade, Magda nos adverte então da importância de "medir o letramento" da sociedade.

Apesar de encontramos dificuldade em definir letramento, devemos tentar conceituá-lo, para que possamos medi-lo e avaliá-lo, sendo esse procedimento importante para que tenhamos êxito no nosso letramento como contexto social, sendo esse de grande importância para nossa sociedade. Sua importância se dá pelo para que com esses dados se estabeleça e se criem políticas para controlar programas de alfabetização e letramento.

Magda ainda afirma que "há diferentes tipos e níveis de letramento, dependendo das necessidades, das demandas do indivíduo e de seu meio, do contexto social e cultural."


ANALFABETOS LETRADOS?

É interessante descobrirmos que muitos analfabetos podem ser pessoas letradas. Mas como isso acontece? Garcia e Borges (2005) nos revela que é possível encontrarmos analfabetos letrados e letrados analfabetos. Vejamos como um analfabeto pode se tornar letrado.

Os analfabetos envolvem-se em práticas sociais diárias de leitura e de escrita, quer seja ao pedir alguém que leia o nome de um ônibus ou de uma rua, que leia uma carta que recebe, que veja o prazo de validade de um produto no supermercado, que anote um recado para alguém etc. Embora não saibam ler e escrever, essas pessoas, de certo modo já apresentam graus de letramento, uma vez que estão imersas num mundo letrado e fazem uso, de uma forma ou de outra, da leitura e da escrita.

Na verdade o "letramento" pode e deveria acontecer muito antes do processo da alfabetização. Ao lermos Paulo Freire (1983, p.11) logo compreendemos que mesmo antes do aprender a ler, muitos já estão fazendo uma leitura do mundo.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto.


A ESPECIFICIDADE E INDISSOCIABILIDADE DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

O Alfabetizar e o letrar são distintos e ao mesmo tempo inseparáveis. Magda Becker Soares (citada por BATISTA) nos deixa isso claro em suas palavras .

Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, lingüísticas e psicolingüísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita se dá simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita – a alfabetização, e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita – o letramento. Não são processos independentes, mas interdependentes, e indissociáveis: a alfabetização se desenvolve no contexto de e por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através de atividade de letramento, e este, por sua vez, só pode desenvolver-se no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema, isto é, em dependência da alfabetização.

Paulo Freire (1983) segue a mesma linha quando afirma:
"Assim como os autores que apresentamos, consideramos distintos os conceitos de alfabetização e letramento, embora entendamos que são processos que se interpenetram, uma vez que a leitura do mundo precede a leitura da palavra e aprender a ler e a escrever é também compreender o mundo no seu contexto, vinculando linguagem e realidade ."

Muitos dos brasileiros que se julgam alfabetizados, não estão preparados para tirarem proveito dessa prática em seu dia a dia. Segundo Magda Soares (2003, p.20) "Só recentemente passamos a enfrentar esta nova realidade social, em que não basta apenas saber ler e escrever, é preciso também saber fazer uso do ler e do escrever, saber responder as exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente." Portanto, o papel do educador é fundamental nesse processo. PEIXOTO nos desafia a alfabetizar letrando "O que pretendemos é incentivar o educador a fazer uso do conhecimento nato de mundo que o educando possui e sua relação com a língua escrita, assim ele poderá alfabetizar letrando."


O PAPEL POLÍTICO SOCIAL DO EDUCADOR

Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de uma sociedade (Tfouni, 1995, p. 20).

Magda Becker Soares nos alerta: "Letrado é o estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita." Portanto, o alfabetizador não apenas deve estar preocupado a ensinar o aluno a ler e escrever mas deverá ensiná-lo a fazer uma leitura do mundo, a compreender o mundo a partir do contexto onde está inserido. Para Madga esse processo deve conduzir o indivíduo a novos estágios da vida: "Aprender a ler e a escrever (alfabetizado) e fazer uso da leitura e da escrita transformam o indivíduo levam o indivíduo a um outro estado ou condição sobre vários aspectos: social, cultural, cognitivo, lingüístico, entre outros." Para Magda letrar é o resultado da ação de ensinar a aprender as práticas sociais de leitura e escrita. Magda afirma que essa pessoa letrada passa ter um diferente modo de pensar das pessoas que são analfabetas e ou iletradas.

Freire nos lembra: “Aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade”.

A medida que o educador passa a conduzir o aluno nesse processo de buscar uma leitura do mundo onde está inserido, o educador inevitavelmente está cumprindo seu papel político. Político por estar ensinando seu aluno a não apenas fazer essa leitura do mundo onde está inserido como também interagir nesse processo. Paulo Freire (1989, p. 11) confirma essa visão quando escreve "Do ponto de vista crítico é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Quanto mais ganhamos esta clareza através da prática, mais percebemos a impossibilidade de separar a educação da política e do poder." Andréia Aparecida de Souza também confirma esse conceito ao afirmar "Ser letrado é também se comunicar com a sociedade, apropriando-se deste aprendizado para aprimorar os seus conhecimentos sociais, cognitivos e políticos podendo assim responder às demandas sociais de leitura e escrita na sociedade contemporânea."

De acordo com a ótica de Freire (1989, p. 19), está havendo uma mudança de paradigma entre os educadores que passam não apenas a preocuparem-se com a alfabetização mas em letrar o aluno a medida que o alfabetiza.

Se antes a alfabetização de adultos era tratada e realizada de forma autoritária, centrada na compreensão mágica da palavra doada pelo educador aos analfabetos; se antes os textos geralmente oferecidos como leitura aos alunos escondiam a realidade, agora pelo contrário, alfabetização como ato de conhecimento, como um ato criador e como ato político é um esforço de leitura do mundo e da palavra. Agora já não é possível textos sem contexto.


CONCLUSÃO

Se formos descobrir a afirmação de Magda Becker Soares SOARES, Magda (1999: p. 35) que diz: "Já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita", poderemos afirmar que muitos professores infelizmente já não vivem mais em estado de letramento. Não seria esse o motivo de tantos alfabetizados terem interrompido seu estado de letrados? se é que alguns deles realmente iniciaram esse processo durante a alfabetização!

Souza A. A. nos mostra que um professor sábio sabe que a escola não é a única agência que pode participar do letramento do aluno. Caberá a esse educador desafiar seu aluno a descobrir novas agências de letramento para enriquecer seu aluno.

Se no cumprir de nosso papel de educadores, desejarmos não apenas alfabetizar mas letrar nossos alunos, então será necessário darmos ouvidos as palavras de Freire sobre a importância de também fazermos da leitura um processo que seja desafiador para nós como educadores. Freire afirma: "a leitura não deve ser memorizada mecanicamente, mas ser desafiadora, que nos ajude a pensar e analisar a realidade em que vivemos" (FREIRE, p.32).

Para que todo esse processo aconteça devemos ler sempre e seriamente livros que nos interessem, que favoreçam a mudança da nossa prática, procurando adentrarmos nos textos, criando aos poucos uma disciplina intelectual que nos levará não somente fazermos uma leitura do mundo, mas escrevê-lo o reescrevê-lo, ou seja, transformá-lo através de nossa prática consciente.

Freire diz que “é na leitura do mundo que surgem as palavras” (Paulo Freire – Abertura do Congresso Brasileiro de Leitura – Campinas, novembro de 1981). É na leitura do mundo que nossa mente e coração de educadores são fecundados pela visão e desejo de mudar a realidade da humanidade para algo melhor. Sem leitura do mundo é não ter visão.

Quero terminar minha reflexão com uma excelente frase de Freire que nos leva como educadores a termos uma postura humilde quando afirma: “É preciso que quem sabe, saiba sobre tudo que ninguém sabe tudo e que ninguém tudo ignora” (FREIRE, p.32).


REFERÊNCIAS

BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Alfabetização, Leitura e Escrita. Disponível em: . Acesso em 9 de outubro de 2008.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo: Cortez, 1988.

GARCIA, Inês Helena Muniz; BORGES, Elisa Siqueira Borges. Letramento e a Apropriação Social da Leitura e da Escrita na Alfabetização de Jovens e Adultos. Disponível em: . Acesso em 9 de outubro de 2008.

PEIXOTO, Cyntia S; SILVA, Eliane B.; SILVA, Ivan B. da; FERREIRA, Luciano D. Letramento: Você Pratica?. Disponível em: . Acesso em 9 de outubro de 2008.

RODRIGUES, Antonio Paiva. Letramento. Disponível em: . Acesso em 9 de outubro de 2008.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. 2 ed. 6 reimpr. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

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